O preço de uma peça artesanal sai da soma de cinco partes: o material (com a perda incluída), o seu tempo, uma fração dos custos da produção que não aparecem em cada peça, a embalagem e uma reserva para o negócio. Depois, esse valor é ajustado para cada canal de venda, porque marketplace, feira e venda direta cobram coisas diferentes, e só então comparado com o que o mercado paga. Para mostrar como isso funciona na prática, vamos acompanhar um caso hipotético do começo ao fim, com valores modestos que servem apenas para ilustrar a conta.

Os números do caso não indicam quanto uma artesã costuma ganhar. O resultado real depende do produto, do público, do tempo disponível e da constância de quem produz e divulga.

O ponto de partida do caso

Lúcia costura bolsas de tecido forradas, com zíper e alça de algodão, nas tardes livres. Até agora vendeu para conhecidas, cobrando “o que achava justo”, e percebeu que no fim do mês sobrava pouco. Ela quer passar a vender também num marketplace e numa feira mensal do bairro, e decide calcular o preço com cuidado antes de anunciar.

Ela tem cerca de 15 horas por semana para costurar e estima que consegue produzir umas 15 bolsas por mês, entre corte, costura, acabamento, fotos e atendimento.

Primeira decisão: quanto custa o material de uma bolsa

Lúcia separa uma bolsa pronta e lista tudo o que entrou nela, pelo preço que pagou em cada item:

ItemCusto por bolsa
Tecido externoR$ 8,00
ForroR$ 4,00
ZíperR$ 3,00
Alça de algodãoR$ 3,00
Entretela e linhaR$ 2,00
SubtotalR$ 20,00

Em seguida, ela acrescenta a perda: os retalhos que não servem, o corte que saiu torto, o zíper que veio com defeito. Sem medir, ela estima 10%, o que leva o material a R$ 22 por bolsa.

O que essa decisão provoca: antes, Lúcia considerava só o tecido externo, que é o item mais visível. Com a lista completa, o material dobrou em relação ao que ela imaginava.

Segunda decisão: quanto vale o tempo dela

Cronometrando duas bolsas, Lúcia chega a 2 horas por peça, contando corte, costura e acabamento. Ela define um valor de R$ 15 por hora, pensando no que considera razoável para o tempo disponível e para o tipo de trabalho. São R$ 30 de mão de obra por bolsa.

O erro que ela evita aqui é o mais comum entre quem produz à mão: não cobrar o tempo, como se fosse um passatempo. Quando o tempo fica de fora, o preço cobre só o material, e cada bolsa vendida paga o tecido da próxima, mas não paga quem costura.

Terceira decisão: os custos que não aparecem na peça

Há gastos que não pertencem a nenhuma bolsa específica, mas existem por causa delas: agulhas, manutenção da máquina de costura, a parte da energia elétrica, a internet usada para anunciar e responder clientes. Lúcia estima esses custos em R$ 60 por mês e divide pelas 15 bolsas que produz: R$ 4 por bolsa.

Ela também inclui a embalagem que o cliente recebe, papel de seda e um saquinho de papel, em R$ 3 por bolsa.

A soma até aqui é o custo base:

  • material com perda: R$ 22;
  • mão de obra: R$ 30;
  • custos indiretos: R$ 4;
  • embalagem: R$ 3;
  • custo base: R$ 59.

Quarta decisão: a reserva do negócio e o preço da venda direta

Sobre o custo base, Lúcia acrescenta 15% de reserva. Esse valor não é salário, já pago na mão de obra: é o dinheiro que vai para trocar a tesoura e a máquina um dia, para os meses fracos e para a contribuição mensal caso ela se formalize. Se e como formalizar é uma decisão que ela pretende confirmar com um contador, porque depende do volume de vendas e da cidade.

R$ 59 com 15% de reserva dão R$ 67,85, arredondados para R$ 68. Esse é o preço da venda direta, por WhatsApp ou rede social, com retirada combinada, em que nenhum intermediário cobra nada.

Quinta decisão: o preço muda conforme o canal

Cada canal tem um custo próprio, e o preço precisa absorvê-lo para que o valor que chega à Lúcia continue sendo R$ 68.

No marketplace. Suponha uma comissão de 20% sobre a venda mais uma tarifa fixa de R$ 5 por pedido (as condições reais variam de plataforma para plataforma e de categoria para categoria). A conta não é somar 20% aos R$ 68, porque a comissão incide sobre o preço final. O certo é dividir: (R$ 68 + R$ 5) ÷ 0,80 = R$ 91,25, arredondado para R$ 92. Conferindo: 20% de R$ 92 são R$ 18,40; tirando isso e os R$ 5, sobram R$ 68,60.

Na feira. A barraca custa, no exemplo, R$ 90 por dia, e Lúcia espera vender umas 9 bolsas em cada edição. Isso dá R$ 10 por bolsa, e o preço na feira fica em R$ 78.

O que essa decisão provoca: a mesma bolsa passa a ter três preços. Lúcia decide manter a diferença, mas pensa em como explicar: na venda direta, o cliente combina retirada e espera a produção; no marketplace, recebe em casa com a intermediação da plataforma. Quem está começando a anunciar nesses canais encontra mais detalhes em como vender produtos no Mercado Livre e na Shopee usando o celular.

Sexta decisão: o que fazer quando o preço passa do mercado

Lúcia pesquisa bolsas parecidas, feitas à mão, com forro e zíper, e encontra a maioria entre R$ 60 e R$ 85 nos anúncios. O preço de R$ 92 no marketplace está acima dessa faixa. Ela tem três caminhos e avalia cada um:

  • baixar o preço e pronto: significaria receber menos pela hora ou cortar a reserva. Ela descarta, porque o problema voltaria em cada venda;
  • reduzir o custo sem reduzir o valor da hora: cortar várias bolsas de uma vez e comprar tecido em quantidade maior;
  • mudar o produto: criar uma versão sem forro, mais simples e rápida, para quem procura preço menor.

Ela testa o segundo caminho. Cortando dez bolsas de uma vez, o tempo por peça cai de 2 horas para 1 hora e meia, e a mão de obra passa a R$ 22,50, mantendo os mesmos R$ 15 por hora. Comprando o tecido em quantidade maior com um fornecedor, o material com perda cai para R$ 19. O novo custo base é R$ 19 + R$ 22,50 + R$ 4 + R$ 3 = R$ 48,50. Com a reserva de 15%, a venda direta fica em R$ 55,78, arredondados para R$ 56; no marketplace, (R$ 56 + R$ 5) ÷ 0,80 = R$ 76,25, arredondados para R$ 77; na feira, R$ 66.

O que essa decisão provoca: os três preços entram na faixa do mercado sem que o valor da hora caia. Em troca, Lúcia passa a deixar mais dinheiro parado em tecido comprado de uma vez e precisa planejar quais estampas vão sair, para não ficar com sobra.

Como ficou depois de dois meses

No caso hipotético, depois de dois meses Lúcia percebe que a feira vende melhor as estampas coloridas e o marketplace vende mais as bolsas lisas. Ela também confirma que a estimativa de perda de 10% estava alta para as bolsas lisas e baixa para as estampadas, em que precisa alinhar o desenho. Por isso, refaz a conta de material separando os dois tipos.

A reserva de 15% acumulada paga a troca da agulha e da tesoura sem tirar dinheiro da casa. E, pela primeira vez, ela sabe dizer por que cada bolsa custa o que custa quando um cliente pede desconto: a resposta é oferecer a versão mais simples, não reduzir o preço da mesma bolsa.

O que este caso mostra para quem quer precificar o próprio artesanato

O caso de Lúcia deixa alguns pontos práticos para quem está calculando o preço das próprias peças:

  • liste todo o material da peça, não só o principal, e some uma perda realista;
  • cronometre o tempo de algumas peças e cobre por ele, com um valor por hora definido por você;
  • divida os custos indiretos do mês pela produção do mês;
  • calcule o preço de cada canal dividindo pelo que sobra depois da comissão, e não somando a porcentagem;
  • quando o preço passar do mercado, procure primeiro reduzir tempo e custo, depois mudar o produto, e só por último mexer no valor da hora;
  • refaça a conta a cada poucos meses, com os números reais da sua produção.

Para ideias de como apresentar essas peças nas redes e atrair quem valoriza o trabalho feito à mão, este texto sobre como transformar o hobby em renda usando redes sociais complementa o cálculo.